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Radiografia da Notícia
* De acordo com o sexólogo Januário Mourão, autor do projeto “Prazer! Te conhecer” e professor de anatomia humana, as pessoas tentam reproduzir padrões irreais construídos pela pornografia, machismo, religião, publicidade ou até mesmo pelo senso comum
Redação/Hourpress
Segundo uma pesquisa inédita realizada pela The 19th em parceria com a YouGov, divulgada no mês de outubro, cerca de 51% dos homens da Geração Z acreditam que a sociedade se beneficia com o retorno aos papéis de gênero tradicionais — entre as mulheres, o índice é de 43%.
O resultado colocou em discussão a percepção dos jovens sobre os papéis sociais, algo frequentemente abordado pela cultura pop, a exemplo de filmes como “Eu Não Sou um Homem Fácil” (2018). Os padrões de gênero também influenciam a maneira como homens e mulheres vivenciam a sua sexualidade. É o que explica o sexólogo Januário Mourão, autor do projeto “Prazer! Te conhecer” e professor de anatomia humana.
“Muitas pessoas passam anos acreditando que existe algo errado com elas quando na verdade estão tentando reproduzir padrões irreais construídos pela pornografia, pelo machismo, pela religião, pela publicidade ou pelo senso comum. Parte desses bloqueios está relacionada ao patriarcado. Retornar a um suposto ‘papel de gênero tradicional’ é uma armadilha, principalmente no que diz respeito ao sexo. Isso faz com que vários jovens, ainda imaturos, retomem uma expectativa irreal e que assim reproduzam ansiedade de desempenho, medo da vulnerabilidade e a compreensão limitada do prazer. Nas mulheres, a repressão ao desejo, o desconhecimento do próprio corpo e a naturalização da dor durante o sexo continuam sendo problemas frequentes”, comentou.
Ideia
Januário atribui esse fenômeno dos papéis de gênero às pressões sociais cada vez mais difundidas entre a geração Z. No entanto, o movimento não é benéfico. Um exemplo disso, segundo o mestre e doutor em Ciências Morfológicas, é que a pressão sobre os homens começa antes da relação sexual. A ideia de que devem estar sempre dispostos, tomar a iniciativa e corresponder a um “padrão de desempenho” são causas que podem transformar o sexo em teste. Nesse contexto, surgem questões como ansiedade de desempenho, medo de não manter uma ereção, preocupação com o tamanho do pênis e com a duração da relação.
“É aí que começam a aparecer outros problemas. A pornografia é uma delas e atua na formação das expectativas sexuais, especialmente entre adolescentes e jovens. Para muitas pessoas, a pornografia se torna uma fonte de ‘aprendizado’, embora apresente cenas produzidas baseadas em performance e frequentemente distantes das experiências reais. Outro tema que ganha fôlego é sobre o uso indiscriminado de medicamentos para ereção. A pressão para manter um desempenho, somada à ansiedade e à comparação, tem levado muitos homens a utilizar substâncias sem indicação ou acompanhamento adequado”, explicou.
O articulador do “Antimachismo Social Club” destaca que esses e outros pontos são gatilhos que remetem aos papéis de gênero tradicionais, atravessados pelo machismo e suas expressões, conhecidas como ‘micromachismos’. A dificuldade de falar sobre desejo, a falta de conhecimento sobre o próprio corpo e a ideia de que é preciso corresponder às expectativas do parceiro ainda atravessam a experiência sexual de muitos jovens, inclusive as mulheres.
Sexual
“Precisamos ampliar o debate sobre dor durante o sexo, anorgasmia, desejo, saúde sexual feminina e direito ao prazer — temas que, se pensarmos nos avanços das últimas décadas, sequer poderiam ser discutidos com a mesma liberdade. A ideia de que mulheres devem suportar desconfortos ou atender às expectativas do parceiro, no entanto, ainda permanece muito presente. Isso aparece desde as piadas sobre o corpo feminino até a necessidade de exercer dominância durante o ato sexual. São os chamados micromachismos: comportamentos que parecem banais ou isolados, mas que reproduzem uma lógica em que as pessoas passam a viver a sexualidade menos a partir da própria liberdade, do desejo e do prazer e mais a partir de expectativas e ideologias que aprenderam a reproduzir”, elucidou.
A experiência de Januário parte desse encontro entre anatomia, comportamento, cultura e relações de gênero. Para o sexólogo, que atua desmistificando questões sobre corpo, sexo e prazer, a pergunta mais interessante não é se os jovens estão ficando mais tradicionais ou liberais, mas entender quais expectativas eles estão herdando, rejeitando ou reproduzindo sem perceber as consequências.
“Discutir sexualidade, portanto, também significa discutir educação. O que homens e mulheres aprendem desde cedo sobre seus corpos, seus desejos e seus limites pode influenciar diretamente a maneira como estabelecem relações na vida adulta. Isso afeta a esfera sexual, tal qual a política, cível e por aí vai”, concluiu

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